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quarta-feira, junho 15, 2005

Roberto Jefferson, num jantar histórico da democracia.

Num clima de Copa do Mundo, assistiu-se em 14/06/2005, ao ainda Deputado Roberto Jefferson fazer sérias acusações a todo o sistema político brasileiro, acima dos meros partidos e seus integrantes. Ao mesmo tempo, a Bolsa de Valores e o Câmbio aceitaram com maturidade os desvios do poder, em nome da democracia e da ordem estabelecidas. Até o Risco Brasil se comportou “economicamente”.
Embora sem provas materiais, que porventura venham a surgir, Roberto Jefferson, em seu testemunho (que também é admitido como prova pela lei brasileira), foi contundente e esclarecedor, apontando e até nominando, explicitamente, as obscuras ligações entre políticos e empresas públicas e privadas, num conluio com “interesses somente privados”, absolutamente distantes do civismo que deveria imantar as condutas de todos os políticos brasileiros.
Assistiu a cidadania brasileira, ao vivo pela TV, pelo rádio e pela Internet, às suas feras do Legislativo, digladiar-se não mais por suas presas indefesas, mas pela carcaça de seus próprios pares. Os poderosos políticos, agora reféns da própria torpeza, adentraram num autêntico Coliseu Romano, ora calados, ora combativos, todos apreensivos, esperando a formação das listas de um abate popularesco, que se tiver sorte e “juízo” o Brasil, se converterá no final, em uma investigação séria, seguida da condenação de seus culpados, pelo Poder Judiciário.
Contudo, em meio à peste, talvez se sinta na data de hoje, histórica, mais aliviado o povo brasileiro, o dia em que a casa caiu, mas não a Bolsa.
Tomara que os mercados vejam e assimilem, que o povo pense e aja, para que não mais sejam admitidos quaisquer abusos, “em nome das instituições e dos poderes constituídos”, especialmente os de tal envergadura.
Para que se separem em definitivo, os interesses privados escusos, do manto da discricionariedade e legalidade públicas, que terminam por permitir acordos espúrios, que vêm sangrando o erário do país. E que, vergonhosa e absurdamente, terminam por integrar algumas supostas “políticas públicas”, que carecem de justificativas econômicas sérias e não se coadunam com o interesse popular ou com a ética e o direito.
Destaque-se que o civismo e o patriotismo são princípios conseguidos, por vezes, a duras penas, com o risco até de algum confronto ou execração, que não podem, sem dúvida, ser declinados, para ocultar a inércia do comodismo ou a ineficácia da justiça, num álibi mentiroso a manter a normalidade da democracia e a estabilidade econômica. Pelo contrário, estas últimas somente serão conseguidas, em seu apogeu, caso haja o confronto do exemplo, com o discurso que o precedeu. Exatamente o que vemos no atual cenário político brasileiro, onde se opõem exemplos e discursos, de Deputados provavelmente associados a alguns interesses do Poder Executivo, num projeto obtuso de poder.
Assim sendo, ainda que Roberto Jefferson tenha sido vilão em recente novela da vida brasileira (Collorgate), o seu papel atual é o de coadjuvante da democracia de mãos limpas, o do personagem que respalda o ator principal, o interesse público. Mesmo que Jefferson seja titular dos mais variados interesses privados, até possivelmente escusos, é indubitável que serviu de escada para a apuração dum “mal quase institucional”, que supera em muito uma eventual responsabilidade apenas pessoal, já que a eventualidade parece estar ocorrendo em todas as ocasiões, dado o histórico de impunidade no Brasil, onde parasitas do desenvolvimento nacional vêm jantando abertamente com os parasitados, em nome dum suposto interesse público.
Diga-se, de passagem, que para tais jantares, o atual “pária entre pares” do Congresso, o ainda Deputado Roberto Jefferson, deve ter sido habitualmente convidado.
Talvez agora, alguns açougueiros do desenvolvimento nacional tenham que se fartar, com o mesmo capim que gostam de oferecer ao povo brasileiro. É possível que o diálogo entre autoridades, que recentemente se transformou numa verdadeira cópula entre poderes, tenha que apresentar ao povo, os seus bastardos. É provável que os “jantares” entre autoridades do Primeiro Escalão, de todos os Poderes, com os pseudo-guardiões dos supostos interesses econômicos nacionais, que o povo brasileiro acostumou-se a assistir passivamente, apenas pagando a conta ao final, sejam, doravante, diferentes, mais saudáveis.
Enfim foi oferecido ao povo brasileiro um menu que pode saciar sua fome de justiça, ainda maior que a de oportunidades. Foi servida, por um inusitado anfitrião, o Deputado Roberto Jefferson, “uma feijoada com o bacon fornecido pelo próprio porco” e uma “omelete cujos ovos são estrelados”. Um banquete democrático, cuja saborosa sobremesa, a justiça, todos aguardam ansiosamente.
Em verdade, no presente momento democrático nacional, em que pesem os defeitos pessoais do anfitrião Jefferson e que tenha cozinhado no passado, para seus canibalizados de hoje, o que importa é uma correta apuração dos fatos, anteriormente blindados à opinião e interesse públicos.
Espera o povo brasileiro, portanto, que o seu novo “chef de cuisine”, o Deputado Roberto Jefferson, não se acovarde com o rigor da lei, a vingança dos “donos do buffet” ou o valor da conta do banquete. Ainda que seja seu último jantar político e o primeiro cívico. E que os Mercados não se espantem com o cardápio, afinal, será deglutido com parcimônia e respeito, cabendo às latrinas o seu saldo negativo. A única ressalva se faz à falta dos banheiros públicos, que “estruturalmente” não vêm recebendo recursos compatíveis com as necessidades nacionais, em razão do constante aperto de verbas, contidas supostamente, para o acerto das contas públicas brasileiras. Ou será que têm sido utilizadas para outros fins? De qualquer forma e com certeza, deverão os neoliberais apresentar uma solução emergencial, bastante ortodoxa e economicamente viável. Este é o nosso Brasil.
Mas para o povo, frise-se que agora não interessam as planilhas, mas tão somente a esperada Justiça. Que seja feita. A partir da tribuna, nos Tribunais e sem jantares.